Marcelo tem quarenta e um anos e passou dezessete deles dirigindo ambulância. Era o primeiro a chegar quando alguém precisava de socorro na estrada.
Numa noite, voltando pra casa depois do plantão, o carro dele rodou. Acordou sem as duas pernas, abaixo do joelho.
Junto com as pernas foi embora o emprego.
QUERO CONTRIBUIR
Quem segura a casa desde então é a Cristiane, esposa dele. Levanta o Marcelo da cama toda manhã, ajuda no banho, veste a calça que ela mesma cortou na altura certa. Depois sai a pé pro trabalho porque quem levava ela de carro esses anos todos era ele.
Tem uma coisa que pouca gente sabe sobre esse tipo de perda: com o joelho respondendo, dá pra andar de novo com prótese. Andar de verdade, voltar a dirigir, voltar a trabalhar. Já foi confirmado que o Marcelo está pronto pra receber a prótese agora.
Só que esse "agora" tem prazo. Mês após mês parado na cadeira, o joelho endurece e o músculo enfraquece. É por isso que ele treina todo dia na sala de casa, esticando o joelho, segurando no alto, contando até dez. Segurando a porta aberta na disciplina.
As próteses custam o que ele e a Cristiane não juntam nem vendendo tudo. E eles já venderam bastante coisa.
A parte que dependia dele, o Marcelo tá fazendo sem falhar um dia.
O homem que passou dezessete anos indo buscar quem precisava merece que dessa vez venham buscar ele também.